A história é um relato, em sua maior parte falso, de eventos, em sua maior parte sem importância, que são provocados por governantes, em sua maior parte canalhas, e soldados, em sua maior parte idiotas”.

Ambrose Bierce (1842 – desaparecido em 1914)

Comentários satíricos, memórias sobre a agonia da guerra e histórias sobrenaturais existem na literatura desde o surgimento da escrita, e provavelmente em todas as culturas. Do século XIX até os dias de hoje, por exemplo, é possível atestar a popularidade de tais gêneros através do enorme apelo que possuem junto ao mercado editorial (livros de ficção e crônicas jornalísticas) e à indústria cinematográfica. No entanto, e até de forma irônica, poucos são os escritores criativos destas categorias que permanecem populares no cânone ocidental, em especial no horror. Neste cenário, destacam-se as narrativas curtas de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, geralmente estudadas como referência de estilo e de enredo para novas obras nos cursos de literatura.

Dentre os autores considerados ícones da literatura de guerra, horror, poesia ácida e sátira social, Ambrose Gwinnet Bierce, jornalista, poeta, contista, romancista, fabulista e mestre da escrita, frequentemente é pouco lembrado.

Como autor de sátiras, conquistou o apelido de Bitter Bierce (Amargo Bierce), em razão de não poupar absolutamente ninguém de suas críticas mordazes. Por outro lado, fomentou jovens talentos, como Jack London, motivado pelo seu feroz ideal de perfeição na escrita. Como autor de histórias de guerra, foi o único que realmente lutou como soldado na linha de frente da Guerra Civil dos Estados Unidos. Na literatura de horror, invocou suas memórias da época do campo de batalha, adornadas com toques metafísicos e sobrenaturais, a fim de servirem como pano de fundo para a “atração à morte em suas formas mais bizarras”, semelhante ao estilo de Poe, além de evidenciar sua afeição pelas histórias de fantasmas narradas “ao redor da fogueira”.

Mestre no estilo irônico do “grotesco”, superava até mesmo Poe, na mente de muitos leitores, como “o mais controverso dos humoristas controversos”. H. P. Lovecraft, o autor mais proeminente do macabro na primeira metade do século passado, descreveu o trabalho de Bierce como “sombrio e selvagem”, mas outros críticos discordam, citando a “personalidade neutra e estranhamente sociável” de suas narrativas, o que tornava o horror ainda mais intenso.

De fato, ao longo dos séculos XX e XXI, inúmeros contos, romances, filmes e séries de televisão obtiveram sucesso a partir dos modelos desenvolvidos por Bierce. Acredita-se que seus contos “Haita, o pastor” e “Um habitante de Carcosa” influenciaram o escritor de ficção weird Robert W. Chambers no desenvolvimento de “O rei de amarelo”. Além disso, sua obra recebeu adaptações em diversas mídias. “A coisa maldita” foi adaptada, em 2006, na série de televisão “Mestres do horror”, num episódio dirigido por Tobe Hooper, o lendário diretor de O massacre da serra elétrica Uma ocorrência na ponte de Owl Creek , seu conto mais célebre, foi adaptado em, pelo menos, três filmes, um episódio de Além da imaginação , outro de Alfred Hitchcock apresenta , e em diversos programas de rádio da emissora CBS. Em 2005, Kurt Vonnegut, autor do clássico romance Matadouro 5 , considerou Owl Creek o “melhor conto da literatura americana”.

No fim da vida, aos 71 anos, Ambrose Bierce escreveu a história mais interessante de todas ao desaparecer da face da Terra durante uma aventura no México, que se encontrava no meio da revolução. Alguns acreditam que tenha se alistado no exército de Pancho Villa, e especulam até mesmo a hipótese de o escritor ter sido fuzilado sob ordens do líder mexicano, em virtude de seu estilo sincero e implacável.

O próprio Bierce, inclusive, é personagem em mais de cinquenta romances, contos, filmes, séries televisivas, peças teatrais e histórias em quadrinhos. Aparece em obras de escritores tão famosos como Ray Bradbury, Carlos Fuentes e Winston Groom. Este último, aliás, utiliza Bierce como personagem em seu romance “El Paso”, o primeiro desde a publicação de sua obra mais famosa: Forrest Gump . Nele, Bierce é executado pelo próprio Villa. Don Swain escreve sobre a vida do escritor no romance de ficção histórica The assassination of Ambrose Bierce: a love story , de 2015.

Contos estranhos , de Ambrose Bierce, é uma coletânea de trinta narrativas curtas do autor, algumas inéditas no Brasil, traduzidas exclusivamente, e que abrangem todo o período de sua carreira literária. Na obra, o leitor encontrará desde seus contos mais famosos, como os já citados Uma ocorrência na ponte de Owl Creek Um habitante de Carcosa A coisa maldita , passando por trabalhos relativamente conhecidos ou praticamente ignorados pelos brasileiros: Chickamauga, Óleo de cão, O funeral de John Mortonson, Um cavaleiro no céu, A coisa em Nolan, Os olhos da pantera , e muitos outros. Histórias sobre desaparecimentos inexplicáveis, aparições fantasmagóricas, licantropia, execuções militares, muitas das quais passadas na Guerra da Secessão, e que demonstram todo o poder de concisão de um dos grandes nomes da literatura dos Estados Unidos.

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